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Gestão e números

Como precificar um prato de restaurante sem perder margem

Preço chutado é a forma mais silenciosa de quebrar um restaurante. A casa enche, o movimento é bom, e no fim do mês não sobra nada, porque o prato mais vendido é justamente o que dá menos margem. Este texto mostra a conta de ponta a ponta: custo real do prato, CMV, markup, custo fixo, preço de delivery com a comissão dentro e o que fazer quando é hora de subir.

Por Luciana Leitte Publicado em 11 min de leitura

O erro que quebra casa cheia

O caso é sempre parecido. A casa tem movimento, a cozinha não para, o dono trabalha doze horas por dia, e no fechamento do mês sobra pouco ou nada. Quando a gente abre a conta prato por prato, aparece a razão: o item mais pedido da casa, aquele que virou símbolo do lugar, é o que tem o pior custo. Cada venda desse prato faz o dono trabalhar mais e ganhar menos.

Isso não é falta de talento na cozinha. É falta de conta. Preço no food service brasileiro ainda é definido por três métodos ruins: olhar o que o vizinho cobra, pegar o custo dos ingredientes e multiplicar por três, ou cobrar o que o dono acha que o cliente paga. Nenhum dos três conhece o seu custo fixo, o seu desperdício, o seu rendimento real nem a sua comissão de aplicativo.

Aviso de quem é da área de marketing e não de contabilidade: este texto ensina a conta. Decisão de preço é sua e do seu contador. Marketing não mexe em preço, e nenhuma agência séria vai te mandar baixar preço para vender mais fácil.

Passo 1: a ficha técnica

Não existe preço certo sem custo certo, e custo certo sem ficha técnica é adivinhação. A ficha de um prato precisa de quatro informações por insumo:

  • Quantidade bruta. O que você tira do estoque, não o que vai no prato.
  • Fator de correção. O que se perde em limpeza, aparo, osso, casca e descongelamento. Carne, peixe e folha têm perda alta, e ignorar isso subestima o custo em percentuais grandes.
  • Custo por unidade de medida. Preço do quilo, do litro, do maço, atualizado.
  • Rendimento. Quantas porções saem da receita, medidas, não estimadas.

Três custos que quase sempre ficam de fora da ficha e deveriam entrar: o descarte previsto daquele insumo, os acompanhamentos e cortesias que vão à mesa junto (pão, manteiga, molho, guardanapo de papel), e, no delivery, toda a embalagem, incluindo sacola, lacre e talher. Somando esses três, o custo de muitos pratos sobe bem mais do que o dono imaginava.

O passo a passo completo, com a planilha e o jeito de medir o rendimento sem parar a cozinha, está em ficha técnica de prato. Faça primeiro dos dez itens mais vendidos: eles respondem pela maior parte do seu faturamento e, portanto, do seu problema ou da sua solução.

Passo 2: o CMV do prato

CMV é o custo da mercadoria vendida, e no prato ele é lido como percentual do preço de venda. A conta é direta:

CMV do prato = custo da porção dividido pelo preço de venda, vezes cem.

Um prato que custa nove reais e vende a trinta tem CMV de trinta por cento. Essa leitura serve para duas coisas. Primeiro, para comparar pratos entre si e descobrir quais estão pesando. Segundo, para inverter a conta e achar o preço mínimo a partir de um CMV alvo:

Preço mínimo = custo da porção dividido pelo CMV alvo em decimal.

Com custo de nove reais e CMV alvo de trinta por cento, o preço mínimo é trinta reais. Com CMV alvo de trinta e cinco, cai para pouco mais de vinte e cinco. Note a sensibilidade: alguns pontos percentuais no alvo mudam muito o preço, e é por isso que o alvo não pode ser copiado de outra casa.

Como definir o seu alvo, sem inventar número: olhe o seu CMV geral atual, que sai do estoque e do faturamento do mês, e olhe quanto sobrou de lucro. Se não sobrou o que você precisa, o alvo precisa ser mais apertado do que o praticado hoje, e a diferença entre os dois é exatamente o tamanho do seu problema de precificação. Esse cálculo é de gestão, feito com o seu contador, não com o seu social media.

Uma regra que vale para qualquer operação: CMV que sobe três meses seguidos nunca é só preço de insumo. É porção fora do padrão, desperdício, furo de estoque ou receita que mudou sem passar pela ficha.

Passo 3: markup ou margem

Aqui mora o erro aritmético mais comum do setor. Markup é multiplicador sobre o custo. Margem é o que sobra do preço. Elas não são iguais, e tratar uma como a outra tira dinheiro do caixa todo mês.

ConceitoContaPara que serve
MarkupPreço dividido pelo custoAtalho rápido de cálculo na cozinha
Margem de contribuição em reaisPreço menos custos variáveisQuanto cada prato vendido contribui para pagar o custo fixo
Margem de contribuição em percentualMargem em reais dividida pelo preçoComparar pratos de preços diferentes

A conta que importa de verdade na hora de decidir o cardápio é a margem de contribuição em reais, porque é ela que paga aluguel, folha e energia. E aqui aparece uma inversão que muita gente não espera: o prato com melhor percentual não é necessariamente o melhor prato. Um item que contribui com doze reais por venda vende mais caixa que um item que contribui com oito, mesmo que o segundo tenha percentual melhor. Percentual não paga conta, real paga.

Nos custos variáveis, lembre de incluir o que de fato varia com a venda: insumo, embalagem, comissão de cartão, comissão de aplicativo e impostos sobre a venda. Esquecer a taxa de cartão é um clássico, e ela existe em quase toda venda.

Passo 4: o custo fixo entra aqui

Até agora olhamos só o prato. Mas aluguel, folha, energia, internet, contador, software e o seu pró-labore existem independentemente de quantos pratos saírem. Esse bolo precisa ser coberto pela soma das margens de contribuição de tudo o que você vende no mês.

A leitura prática é esta: some o custo fixo mensal e divida pela margem de contribuição média dos seus pratos. O resultado é quantas vendas por mês você precisa fazer só para empatar. Divida por vinte e seis dias de operação e você tem a meta diária. Esse número costuma ser revelador: muitos donos descobrem na primeira vez que a casa precisa de bem mais movimento do que imaginavam, ou que a margem média está baixa demais para o movimento que a casa consegue ter.

Esse é o momento em que a conversa deixa de ser sobre preço e passa a ser sobre estratégia. Há três caminhos quando o número não fecha, e eles não são excludentes: subir a margem média (preço ou custo), subir o volume (marketing), ou cortar custo fixo. Aumentar volume com margem errada só acelera o problema, e é exatamente o caso da casa cheia que não sobra dinheiro.

Passo 5: o ponto de equilíbrio

Com os números acima na mão, você tem três informações que valem mais que qualquer painel de rede social:

  1. Quantas vendas por dia para empatar. O piso da operação.
  2. Quanto de faturamento por dia para empatar. Mais fácil de acompanhar no caixa.
  3. Quanto de faturamento para ter o lucro que você quer. Some o lucro desejado ao custo fixo e repita a conta. É assim que meta deixa de ser desejo e passa a ser número.

Guarde esses três números em algum lugar visível. Eles mudam a conversa com a equipe, com o contador e, no nosso caso, com a agência: campanha boa é a que move esses números, não a que traz curtida.

O preço do delivery é outro

Esta é a seção que mais devolve dinheiro para quem lê. No delivery, você tem custos que o salão não tem, e o maior deles é a comissão do aplicativo. A ordem correta da conta é:

  1. Custo do prato, pela ficha técnica.
  2. Mais a embalagem inteira: pote, tampa, sacola, lacre, talher, guardanapo, molho em sachê.
  3. Calcule o preço como você faria no salão, com o seu CMV alvo.
  4. Divida esse preço por um menos a comissão em decimal. Com comissão de vinte e sete por cento, divida por 0,73.

Na prática: um prato que no salão sai a trinta reais, com comissão de vinte e sete por cento, precisa sair perto de quarenta e um no aplicativo para entregar a mesma margem. Quem cobra os mesmos trinta nos dois canais não está sendo justo com o cliente, está transferindo margem do salão para o aplicativo.

Dois cuidados. O primeiro: cada aplicativo tem percentual próprio, e o seu contrato pode ter condições específicas, então use o seu número, não o que você leu em algum lugar. O segundo: o canal próprio precisa ficar mais vantajoso que o aplicativo, senão você paga comissão para competir consigo mesmo. A conta completa da comissão e as formas de puxar o cliente para o canal próprio sem romper com o aplicativo estão em a taxa do iFood para restaurante.

Engenharia de menu: os quatro grupos

Com custo e margem na mão, cruze cada prato com quanto ele vende. Todo cardápio se divide em quatro grupos, e cada grupo pede uma ação diferente:

GrupoComo éO que fazer
EstrelaVende muito e tem boa margemProteger e destacar. É o prato que merece a melhor foto, o melhor lugar no cardápio e o post da semana
Cavalo de batalhaVende muito e tem margem baixaTrabalhar o custo, rever porção, melhorar o combo em volta. Nunca sumir com ele, porque é o que traz gente
EnigmaVende pouco e tem boa margemDar visibilidade e treinar a sugestão do garçom. É aqui que está o lucro escondido
AbacaxiVende pouco e tem margem baixaReformular ou tirar do cardápio. Cada abacaxi custa estoque, treino e espaço no menu

Essa leitura é o que faz o marketing e a cozinha trabalharem juntos. Quando a agência sabe quais pratos são estrela e quais são enigma, o conteúdo para de ser "foto de comida bonita" e passa a empurrar exatamente o que dá margem. Casa com cardápio mapeado assim ganha dinheiro sem subir preço nenhum, só mudando o que é oferecido primeiro.

Quando e como subir o preço

Subir preço assusta mais do que deveria. O que gera reclamação raramente é o valor novo, é o salto e a falta de contexto. Como fazer sem perder cliente:

  • Frequência curta, ajuste pequeno. Dois reais a cada semestre passam melhor que oito de uma vez.
  • Nunca em todo o cardápio ao mesmo tempo. Suba por grupo, começando pelos itens com menor sensibilidade a preço.
  • Entregue algo visível junto. Cardápio novo, porção melhor apresentada, acompanhamento melhor. O cliente aceita preço quando percebe mudança.
  • Jamais diminua a porção escondendo. Isso é a única coisa que o cliente de verdade nunca perdoa, e ele percebe.
  • Treine a resposta da equipe. Uma frase simples e honesta sobre insumo, para quem perguntar. Sem desculpa longa.
  • Evite as datas erradas. Não suba na semana de uma data cheia nem no meio de uma campanha de atração.

Sinais de que já passou da hora: CMV subindo há três meses, insumo principal que variou acima de dez por cento, margem de contribuição que não cobre mais o custo fixo com o movimento que você tem, ou preço que está no mesmo valor há mais de um ano.

O que o marketing faz com o preço

Para ser direta sobre o nosso papel, porque isso define o que você deve e não deve esperar de uma agência:

  • O que fazemos: ajudar a vender mais do que tem margem, comunicar valor para que o preço faça sentido, montar combo que sobe o ticket com a conta na mão, trazer gente para o canal mais barato de servir, e medir o que entrou de verdade.
  • O que não fazemos: definir o seu preço, mandar baixar preço para a campanha ficar mais fácil, criar promoção sem olhar ficha técnica, ou prometer volume que não paga o custo fixo.

Esta distinção é importante porque promoção feita sem conta é a forma mais rápida de uma campanha dar movimento e prejuízo ao mesmo tempo. Quando alguém propõe desconto sem perguntar o seu CMV, a conversa deveria parar ali.

Se o preço já está certo e a casa não enche, o problema passou a ser de comunicação, e aí é o nosso terreno. O caminho está em como atrair clientes para o restaurante e, para a semana fraca, em como aumentar o movimento do restaurante.

Sete erros de precificação

  1. Copiar o preço do vizinho. Ele tem outro aluguel, outra folha, outro fornecedor e talvez outro problema.
  2. Multiplicar o custo por três e parar aí. Serve de ponto de partida e nada mais, porque ignora custo fixo e canal.
  3. Esquecer o fator de correção. Carne e folha perdem peso na limpeza, e a conta sem isso subestima o custo.
  4. Ignorar a embalagem no delivery. Em alguns pratos a sacola inteira custa mais que a proteína.
  5. Confundir markup com margem. O erro aritmético mais caro do setor.
  6. Mesmo preço em todos os canais. Equivale a pagar a comissão do aplicativo com o lucro do salão.
  7. Nunca revisar. Insumo muda toda semana e o cardápio fica parado um ano.

Se você quer ver o método inteiro, com o que entra em cada frente e o que medimos todo mês, a página de marketing para restaurantes e bares tem a lista item por item. E se o seu negócio é delivery ou cozinha oculta, onde a conta da comissão pesa mais, comece por marketing para delivery.

Perguntas frequentes

Como calcular o preço de venda de um prato de restaurante?

Comece pelo custo real da porção, que sai da ficha técnica com o fator de correção dos insumos. Depois defina qual percentual do preço de venda esse custo pode ocupar, o chamado CMV alvo. Divida o custo pelo CMV em decimal e você tem o preço mínimo. Por exemplo, custo de nove reais com CMV alvo de trinta por cento dá trinta reais. Esse é o piso: por cima dele você ajusta pelo que o mercado aceita e pelo papel do prato no cardápio.

Qual o CMV ideal para restaurante?

Depende do tipo de operação, e é por isso que copiar o número do vizinho dá errado. Casa com bebida forte e cozinha simples opera com CMV de insumo mais baixo, enquanto casa de carne e frutos do mar convive com um número bem maior. O importante não é bater um número de revista, é conhecer o seu, acompanhar mês a mês e saber se ele está subindo. CMV que sobe três meses seguidos é alerta de desperdício, roubo, porção fora do padrão ou insumo que encareceu sem reajuste.

Qual a diferença entre markup e margem?

Markup é o multiplicador que você aplica no custo para chegar ao preço. Margem é o quanto sobra do preço depois de tirar os custos, em percentual do preço. São visões da mesma conta e confundir as duas é um dos erros mais caros do setor, porque markup de trinta por cento não entrega margem de trinta por cento. Trabalhe sempre com margem, que é o número que paga as suas contas, e use o markup só como atalho de cálculo.

Como precificar prato para delivery com a taxa do aplicativo?

A comissão do aplicativo precisa entrar na conta antes do preço, não depois. Some ao custo do prato a embalagem e tudo que vai na sacola, calcule o preço como faria no salão e então divida esse valor por um menos a comissão em decimal. Com comissão de vinte e sete por cento, um prato que no salão sairia a trinta reais precisa sair perto de quarenta e um para entregar a mesma margem. Preço igual nos dois canais quase sempre significa que o delivery está sendo subsidiado pelo salão.

Posso cobrar mais caro no delivery do que no salão?

Pode, e a maioria das casas saudáveis faz isso, porque o custo de servir é realmente diferente. O que não se faz é esconder: a diferença precisa estar visível e o cliente entende quando percebe que ela existe em todo lugar. O cuidado é manter o seu canal próprio mais vantajoso que o aplicativo, senão você paga comissão para competir com você mesmo.

Com que frequência devo revisar os preços do cardápio?

A ficha técnica dos dez itens mais vendidos merece revisão mensal de custo, porque insumo oscila muito. O preço em si costuma ser revisto a cada três ou seis meses, e sempre que um insumo principal variar acima de dez por cento. O pior cenário é ficar um ano sem olhar e precisar de um reajuste grande de uma vez, que é o que o cliente estranha. Ajuste pequeno e regular passa; salto grande gera reclamação.

Próximo passo

O cardápio está com preço certo e o movimento ainda não aparece?

Preço resolvido e casa vazia é problema de comunicação, não de conta. O Raio-X é gratuito, olha o seu negócio de fora, do jeito que o seu cliente olha, e devolve uma nota por área mais as três ações que mais mudam o próximo mês. O documento fica com você de qualquer jeito.

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